Ele está
parado em cima daquela pedra há horas, parece que se passaram apenas alguns
minutos... pulou em cima dela no final da tarde, o Sol começara a se esconder
no horizonte e a onda que se aproximava era diminuta, mas ganhando em estatura ao
tamanho que sente neste momento... Um dia foi muito feliz, momentos que ele
sabia não seriam eternos, mas tinha certeza que bastaria lembrar-se e se veria
sorrindo... Não é o que acontece ali parado olhando para a grandiosidade do
oceano, quase implorando que uma gigantesca onda chegue e lhe tire deste mundo
da qual sabe que não pertence mais! Afinal, para que continuar a existir
sabendo que o motivo de ter vindo foi para encontrar uma pessoa que não está
mais presente, não importa para onde caminhe, nunca mais vai olhar para aquele
sorriso que era tudo que precisava quando queria ter um momento perfeito, nada
lhe faltava, olhava para ela até cair no sono com o suspiro de quem tem o
coração completamente satisfeito tendo a certeza que acordará para outro dia
mais feliz ainda...
Ele
sempre foi um ser tocado pela tristeza, outras belas mulheres que caminharam ao
seu lado percebiam isto ao passar de certo tempo, parecia um segredo, algo
estampado em seu semblante, quando indagado um trêmulo e nem um pouco
convincente esboço de sorriso era sua resposta, àquela que questionava bastava
naquele momento como resposta, pois percebia que não conseguiria extrair
nenhuma palavra de fundamento, então não havia porque insistir em algo
enterrado em concreto, mas que inexplicavelmente parecia ficar transparente...
Ele sempre
soube o porquê destes súbitos reflexos de tristezas indefinidas, mas como
alguém pode dizer que tem conhecimento de que lágrimas estão chegando e afirmar
com convicção de que não há razão para vertê-las.
Em outra
pedra, próxima o suficiente para uma linda jovem ficar admirando
aquele belíssimo homem sentado, não é a primeira vez que enxerga-lhe, pelo
contrário, nos últimos entardeceres tem se tornado seu maior prazer, ficar
vendo aquele ser ali parado, sonhando acordada com o momento em que se erguerá,
com um encantador sorriso virá em sua direção, começando o romance que ela
sempre idealizou, mesmo que seja apenas um lampejo de paixão, um amor
repentino, encontro de corpos por uma única vez naquelas areias, seria um
prazer sem limites. Até esse instante parece-lhe que ele não sentiu nada por
ela, deve ter lhe visto e sentiu nenhum interesse naquela imagem de longos
cabelos cacheados que fica em transe a lhe observar, ela tem a certeza que
seria desejar demais um homem assim...
Ele,
permanece imóvel, acompanhando com o olhar a formação das ondas, até o instante
em que o véu da noite substitui o azulado horizonte, tendo certeza de que não
há razão para continuar vivo, não entende por que até agora não acabou com sua
existência, nesse início de mais uma solitária noite em seu apartamento talvez
ele consiga chegar até um armário onde deixou uma série colorida de comprimidos
e encerrar algo que ele tem certeza ter acabado e que só precisa do ato final.
Ela,
permanece paralisada, sente uma aceleração no coração ao ver aquele homem
levantar e saltar da pedra, caminhando em sua direção, perdendo qualquer sinal
de vergonha entra naqueles olhos cada vez mais próximos e percebe que não está
sonhando, com ele mais perto ainda, sente seus braços e pernas tremerem, o que
dirá para ele, que palavras poderá soprar para lhe excitar, que olhar deve
fazer para seduzi-lo, nervosamente trespassa os dedos em suas madeixas e o
objeto tão desejado está quase à sua frente, pouquíssimos passos os separam, um
calor no peito, é o momento.
Tendo
descido da pedra e com a mórbida ideia fixa naqueles diversos
medicamentos que lhe esperam, começou a caminhar, não entende por que não o fez
ainda, em sua mente nada mais, passos cada vez mais decididos que lhe roubam a
atenção, fazendo com que não perceba a bela imagem a lhe admirar tão
intensamente.
Invisível, um
nada transparente e sem significado, assim ela se sentiu quando aquele ser da
qual não conseguia desviar o olhar passou ao seu lado sem esboçar a menor
reação, há tempos ela considera sua vida vazia de significado, dificilmente se
apaixonava, nem mesmo atração física sentia mais, como se a chama de sua
existência estivesse tremulante quase se apagando, há uns dias atrás lhe viu
naquela mesma pedra onde então passou a lhe vigiar todos os dias, acreditando
ter encontrado sua alma gêmea, deu uma chance ao destino, pois estava cogitando
a ideia de acabar com tudo, algumas vezes parava na janela de seu quarto,
daquele sétimo andar tinha certeza que bastaria estender o corpo para fora e
mergulhar para o término dessa meia-vida, uma pequena esperança lhe dizia que
talvez tivesse alguém que ela teria um papel importante, dando um sentido à
vida, mesmo não sentindo carência de sentimentos, tinha total convicção de que
deveria encontrar esta pessoa e cumprir um papel incumbido à ela pelo destino.
Ele voltou
para seu silencioso apartamento, na sua mente ainda a imagem dos comprimidos
lhe esperando, tinha a certeza que uma desesperada combinação de tantas pílulas
diferenciadas lhe levariam ao sono eterno, súbito lhe vem uma dúvida, por que
não apostar mais uma vez no jogo da vida, talvez ao sair outra vez aparecesse
uma mulher para um recomeço. Torna a olhar para os remédios, lembra que a pouco
estava decidido e para ter mais garantias de sucesso em sua empreitada final
decide sair, encontrar uma farmácia e acrescentar uma carga maior daquelas
pastilhas coloridas. Enquanto desce as escadas de sua morada, outra vez a
indecisão, será que alguma mulher desejaria um homem tão romântico o quanto ele
foi um dia, surge na sua memória a imagem de ter visto vez ou outra na praia,
uma figura feminina solitária, uma dúvida lhe faz tentar lembrar do rosto
daquela mulher, mas está ciente que sua tristeza tão compenetrada lhe roubou
esta lembrança, assim como a certeza de se foram uns ou todos os dias das
últimas semanas em que lhe viu entre as pedras onde tem dividido sua solidão,
acreditando que ao recuperar esta imagem perdida em sua mente, desistirá de
seus intentos.
Caminhando não mais tão decidido, em sua mente uma dança de
dúvidas: comprar mais medicamentos ou não? Como era o rosto que pode ser sua
salvação? Desistir de tudo ou procurar nova vida? Ao dobrar a esquina, vê um
aglomerado de pessoas na calçada à sua frente, ao redor de uma vítima de um
acidente ou crime, nunca entendeu esta curiosidade mórbida que as pessoas tem
por estas cenas. Procura desviar sem prestar atenção, mas escuta dos lábios
daquela plateia de abutres que a vítima era depressiva, que era certo que uma
hora iria tolamente se matar, mas não esperavam que fosse fazê-lo assim,
atirando-se pela janela. Então, por um rápido instante ele olha para baixo e
naquela vítima reconhece o rosto que tanto tentou lembrar a pouco.
Outono de 2013.
L.