segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Lembranças Vermelhas


           Ao falar de uma cidade fictícia sendo pano de fundo para contos policiais é impossível não citar a minha indiscutível influência advinda de Frank Miller, um mestre das comics de temática adulta, mesmo quando os personagens usam espalhafatosos trajes colantes em cores primárias e de Raymond Chandler e seus romances Noir. Penso que bons empreendimentos culturais devem ser influentes. Pretendo trilhar em cenários mais modestos, mas como tais palavras envolvem as complexidades do ser humano continuarão a manter sua profundidade. O conto das próximas páginas é centrado no jovem  Luca Vino, 27, cidadão de São Paulo, onde atuou na polícia federal até sua recente exoneração por circunstâncias  não esclarecidas por ele...


    Pedra Alta, Rodoviária principal desta grande cidade. Vários rostos desembarcando de diversos ônibus, são semblantes saudosos por esse lugar com suas praias de águas incrivelmente cristalinas para uma metrópole tão poluída, mares que acariciam rochedos erguidos de forma majestosa pela natureza.
    Seus habitantes despedem-se de um rigoroso inverno ainda castigante, principalmente para turistas recentes da região central brasileira. Luca Vino nunca havia pisado nesta cidade, mas conhecendo sua glacial formosura chegou com vestes apropriadas à fria brisa que sopra entre aquelas ruas.
Caminhando com seus sapatos escuros, calca jeans levemente descoloridas, camiseta branca coberta por um longo capote marrom, em seu semblante com barba cerrada estão olhos claros e distantes que junto aos seus cabelos desalinhados pelo vento totalizam uma imagem que não provoca interesse em prostitutas que lhe passam despercebidas, sua atenção está voltada para um bar no outro lado daquela avenida de tráfego movimentado.
Percebendo, por sons oriundos de seu estômago, estar com fome, resolve entrar naquele bar de ambiente pequeno, pouco iluminado e portanto ideal para se manter discreto e anônimo. Após entrar, ele senta-se em uma mesa ao fundo daquele lugar onde não há mais ninguém além de uma bela jovem de tez clara e cabelos vermelhos, ocultando seus traços físicos com um longo avental levemente sujo demonstrando frequentes atividades inerentes a uma cozinheira. Alguns segundos depois ela dirige-se à sua mesa com um sorriso simpático e mostrando-lhe um simples cardápio.
-Olá! Achei que esta hora no final da tarde não viria mais ninguém aqui, já estava limpando tudo para fechar daqui a pouco! Quer beber algo...escolher algum lanche do cardápio..?        
Grato com a simpatia daquela bela mulher ele pede  uma cerveja e um lanche que sacie seu apetite. Enquanto manuseia um cigarro e uma pequena carteira de fósforos solicita um cinzeiro após questionar a permissão para fumar em tal estabelecimento.
Luca, após alguns minutos degustando a fermentação de levedo resfriada de uma garrafa de cerveja em sua mesa, vê a jovem de madeixas escarlates retornar portando entre seus braços um prato com pães torrados exalando o agradável odor de queijo derretido.
  -Tu é novo aqui na cidade? Sou ótima para memorizar rostos e não me lembro...
-Realmente, não sou daqui. Estou sempre viajando e trocando de ares, cheguei a pouco de São Paulo, encarei uma longa viagem de ônibus por horas com passageiros barulhentos. Estou louco para achar algum hotel barato e me atirar na cama o resto do dia!
-Então tu está com sorte, sei de uma pequena pensão de bom preço aqui perto, pertence à minha irmã mais velha! Vou te dar o endereço! Tu vai gostar de lá, fica duas ruas para trás daqui...coloquei o endereço neste papel, o nome da minha irmã é Mônica, ao vê-la, diga que mandei um beijo!
 -Direi sim, fico muito grato pela sua ajuda! Como te chamas?
-Todos me chamam de Guida...e você?
Luca não responde de imediato, a menção daquele nome provoca-lhe um calafrio, perceptível até mesmo para a moça à sua frente, o seu olhar se perde naquele breve momento como se à procura de algo muito distante dali. Guida questiona o porquê de sua expressão espantada, ele rapidamente volta a si e com uma resposta nada convincente diz lembrar-se de um compromisso, estica a mão para cumprimentá-la e diz seu nome.
- Luca Vino, foi um prazer conhecê-la! Agora preciso mesmo ir!
- O que houve? Tu não disse que recém chegou aqui...
Ele não responde, apenas esboça um sorriso e parte na direção do prédio indicado pela jovem. Como ela poderia adivinhar que possui o mesmo nome de alguém que lhe foi muito importante e ainda por cima de extrema semelhança física, na verdade foi este segundo fator que levou ele a ser tão receptivo com a jovem. O último sorriso no semblante deste homem surgiu a uma dezena de dias e noites, quando estava com outra Guida entre seus braços e trocavam carícias que pareciam querer juntar-se à eternidade aquelas duas belas almas!
Após uma rápida apresentação e troca de gentis palavras com a mulher chamada Mônica, adentra um quarto no segundo andar onde deita em uma cama próxima da janela com cortinas entreabertas e que dançam lentamente ao frio sopro anunciante de outra noite inimiga do calor.
O esgotamento físico leva-lhe rapidamente ao sono, que assim como nas últimas noites não é um terreno mais tranquilo que o atual mundo real onde caminha. Nos sonhos as névoas tomam sempre a mesma forma: figuras correndo em ruas pouco iluminadas e deixando para trás uma jovem agonizante, Luca atordoado por um golpe acima de seu supercílio escorrendo sangue e escurecendo sua visão... o sonho segue para dias seguintes onde com informações de oficiais da lei ele pratica sua vingança com disparos certeiros de sua própria arma, são estes mesmos oficiais que o levam a responder perante a lei por sua atitude impulsiva, ele escapa da sentença de prisão mas perde seu cargo como um agente da lei. Este sonho tem se repetido diversas vezes e nada mais é do que a transposição de seus últimos dias na capital São Paulo.
Ao abrir os olhos, percebe em todo o quarto uma iluminação escarlate. Como o sangue que ardia sua vista poucos instantes atrás, no reino dos sonhos; os cabelos daquela adorável moça no bar; as madeixas de outra muito importante para aquele que conduzia todos seus pensamentos com sua imagem sempre brilhante. Ela, a total manifestação de amor que ele sentiu em todos seus dias, desde aquela tarde a três invernos atrás quando um amigo de velhos tempos apresentou-lhe como sendo uma grande pessoa da qual nutria extremo carinho e gostaria de vê-la acompanhada dele, que mais tarde não teve forças para negar o desejo de vingança que tirava-lhe o sono. A rubra luz vinha de uma velha placa com letras incandescentes que piscavam aleatoriamente e indicavam existir uma casa de diversões noturnas naquela pequena construção ao lado do hotel onde descansava. Olhando para o relógio de ponteiros em seu pulso vê ser uma hora da manhã e tendo descansado um pouco durante seu angustiante sonho, resolve conhecer aquele estabelecimento. Após uma rápida troca de roupas, um choque de água fria no rosto termina por despertar-lhe os sentidos. Saído do quarto, desce as escadas e passa na recepção onde vê Mônica ainda ali, tratando de receber os que naquela tardia hora surgem.
- Oi! Você ainda por aqui!
- É, tenho um funcionário que fica aqui de noite, mas hoje não pode vir então ficarei eu mesma!
- Certo! Vou ver como é essa casa aqui ao lado, estou sem sono mesmo...
- Escute, sei que não é da minha conta, mas tu parece um bom sujeito, além de que até a Gui foi com a sua cara, então acho que não vai curtir o tipo de pessoas que encontrará lá dentro!
- Não esquenta, estou acostumado com estas figuras onde  morei antes...
Luca sai deixando uma expressão de gratidão pela preocupação de Mônica. Ele tem noção do tipo de ambiente que irá adentrar, bem como de seus respectivos ocupantes.
Na entrada, coberta por um velho toldo, estão dois homens de porte avantajado trajando roupas escuras, com olhares indiferentes, protegendo uma pequena porta, enquanto discretamente observam sua silhueta procurando por armas escondidas. Se estes dois guardiões prestassem mais atenção em seu semblante poderiam perceber um leve tom de deboche. Ao entrar, é golpeado nas narinas pelo forte odor de tabaco naquele ambiente de pouca luz em todos sentidos da palavra, uma ampla sala com várias mesas e sofás em todas paredes do recinto onde vê homens e mulheres sussurrando, alguns mais agitados, talvez efeito do álcool nos copos entre seus dedos tremulantes, vibrando no ar o som de um velho blues tocado de maneira enérgica denunciando aos bons conhecedores do assunto tratar-se de fortes acordes do saudoso Steve Ray Vaughan.
Em meio a esse ambiente caótico, ele avista uma mesa desocupada e é para onde se desloca, exatamente como procura, em um canto da sala ainda menos iluminado.
Na recepção do hotel, Mônica está sentada atrás do balcão entediada e pensando o que está fazendo ali, porque não contratou sua irmã para ficar em seu lugar nesta noite fria que poderia estar em casa aquecida entre cobertores em sua cama, tendo consciência que Guida está passando por necessidades financeiras provavelmente aceitaria.
Distraída e pensando em sua irmã mais nova, Mônica não percebe que a própria está entrando pela porta naquele exato instante.
-         Mona! Está de carcereira hoje?!
-         E tu, na rua esta hora! No mínimo estava batendo coxa atrás de algum macho por aí...
-         Diferente de ti, não sou uma solteirona encalhada, mas para teu governo não estava me divertindo e sim bancando a babá do filhote de uma conhecida. Era aqui perto, o guri já foi dormir e a mãe dele acabou de chegar e então estou indo dormir um pouco! Passei ali na calçada e vi que ainda estava aqui dentro...
-         Isso eu não posso negar: tu é uma guria trabalhadora! Mudando de assunto, hoje a tarde esteve aqui um cara bem charmoso que tu indicou!
-         Ah, sim! Luca não-sei-do-quê, ele não está mais?
-         Ih, pelo jeito já se interessou! Ficou hospedado sim, por pouco não cruzou com ele aqui mesmo! Neste exato momento está aí do lado, no bar do Roger!
-         Putz! Não deveria tê-lo deixado ir para lá, aquilo ali é ponto de prostitutas e traficantes...
-         Calma, Gui! Sem querer falar mal do teu amorzinho, acho que ele sabe muito bem onde está indo!
-         Não acredito, ele me pareceu ter um olhar tão honesto. Pra variar, sempre me engano com os homens!
Nesse momento, Mônica sente vontade de abraçar sua irmã, para ela Guida sempre será uma ingênua apaixonada.
O olhar de consolo entre as duas é interrompido pelo som de disparos próximos.
Tudo ocorre rapidamente, apressados frequentadores daquele estabelecimento saem esbarrando nos dois seguranças externos como se fossem figuras de papelão em tamanho real caindo ao menor movimento. Poucos instantes depois, o som estridente de sirenes termina por expulsar de vez o já distante silêncio.
As duas irmãs, tomadas pela curiosidade, decidem ir à calçada, próximas a uma viatura policial escutam a conversa entre dois representantes da lei proferindo o nome do proprietário do estabelecimento e de dois outros como sendo as vítimas.
-         Este cachorro já foi tarde!
Um dos policiais vira-se ao ouvir tal comentário e questiona o conhecimento destas mulheres. Mônica responde, explica que o falecido Roger Rodrigues era um homem inescrupuloso que namorou sua irmã por um longo ano até ela descobrir seu envolvimento com drogas e prostituição e terminar o relacionamento. Ele, perdidamente apaixonado e muito furioso, foi embora para São Paulo deixando sócios cuidando de seus escusos negócios. Inesperadamente, voltou na semana anterior, dizendo que ao chegar no centro do país, matou e enterrou ela, resolvendo então voltar.
Elas perguntam por aquele jovem na qual falavam antes de ouvirem os disparos, com a descrição dada, o investigativo agente percebe tratar-se do assassino narrado pelas testemunhas que estavam lá dentro, tendo sumido antes de sua chegada ao local.
Dias depois, após um longo levantamento de dados, todos saberão que aquele anjo vingador foi um agente da polícia federal e que poucas semanas atrás perdeu sua noiva em um assalto, que optou por uma justiça pessoal, encontrando apenas um dos criminosos, sendo este o que demonstrou maior ódio pela vítima. Alguns perceberão também, a peculiar semelhança física e de nome entre aquela noiva assassinada em São Paulo e uma das duas irmãs presentes no recente crime ocorrido naquele bar. Com esta infeliz coincidência, as pessoas entenderão os motivos destes dois crimes e dirão que o caso foi encerrado.

                Lembranças Vermelhas
                                                    Primavera de 2007
                                                                                 L.

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