Lembranças Vermelhas
Ao falar de uma cidade fictícia sendo pano de fundo para contos policiais é impossível não citar a minha indiscutível influência advinda de
Frank Miller, um mestre das comics de temática adulta, mesmo quando os personagens
usam espalhafatosos trajes colantes em cores primárias e de Raymond Chandler e seus romances Noir. Penso que bons
empreendimentos culturais devem ser influentes. Pretendo trilhar em cenários mais modestos, mas como tais palavras envolvem as
complexidades do ser humano continuarão a manter sua profundidade. O conto das
próximas páginas é centrado no jovem Luca Vino, 27, cidadão
de São Paulo, onde atuou na polícia federal até sua recente exoneração por
circunstâncias não esclarecidas por
ele...
Pedra Alta, Rodoviária principal desta grande cidade. Vários rostos desembarcando de diversos ônibus, são semblantes saudosos por
esse lugar com suas praias de águas incrivelmente cristalinas para uma
metrópole tão poluída, mares que acariciam rochedos erguidos de forma majestosa
pela natureza.
Seus habitantes despedem-se de um rigoroso
inverno ainda castigante, principalmente para turistas recentes da região
central brasileira. Luca Vino nunca havia pisado nesta cidade, mas conhecendo
sua glacial formosura chegou com vestes apropriadas à fria brisa que sopra
entre aquelas ruas.
Caminhando com
seus sapatos escuros, calca jeans levemente descoloridas, camiseta branca
coberta por um longo capote marrom, em seu semblante com barba cerrada estão
olhos claros e distantes que junto aos seus cabelos desalinhados pelo vento
totalizam uma imagem que não provoca interesse em prostitutas que lhe passam
despercebidas, sua atenção está voltada para um bar no outro lado daquela
avenida de tráfego movimentado.
Percebendo, por
sons oriundos de seu estômago, estar com fome, resolve entrar naquele bar de
ambiente pequeno, pouco iluminado e portanto ideal para se manter discreto e
anônimo. Após entrar, ele senta-se em uma mesa ao fundo daquele lugar onde não
há mais ninguém além de uma bela jovem de tez clara e cabelos vermelhos,
ocultando seus traços físicos com um longo avental levemente sujo demonstrando
frequentes atividades inerentes a uma cozinheira. Alguns segundos depois ela
dirige-se à sua mesa com um sorriso simpático e mostrando-lhe um simples
cardápio.
-Olá! Achei que esta hora no final da tarde não viria mais ninguém
aqui, já estava limpando tudo para fechar daqui a pouco! Quer beber
algo...escolher algum lanche do cardápio..?
Grato com a simpatia daquela bela mulher ele pede uma cerveja e um lanche que sacie seu
apetite. Enquanto manuseia um cigarro e uma pequena carteira de fósforos
solicita um cinzeiro após questionar a permissão para fumar em tal
estabelecimento.
Luca, após alguns minutos degustando a fermentação de levedo resfriada
de uma garrafa de cerveja em sua mesa, vê a jovem de madeixas escarlates
retornar portando entre seus braços um prato com pães torrados exalando o
agradável odor de queijo derretido.
-Tu é novo aqui na cidade? Sou
ótima para memorizar rostos e não me lembro...
-Realmente, não sou daqui. Estou sempre viajando e trocando de ares,
cheguei a pouco de São Paulo, encarei uma longa viagem de ônibus por horas com
passageiros barulhentos. Estou louco para achar algum hotel barato e me atirar
na cama o resto do dia!
-Então tu está com sorte, sei de uma pequena pensão de bom preço aqui
perto, pertence à minha irmã mais velha! Vou te dar o endereço! Tu vai gostar
de lá, fica duas ruas para trás daqui...coloquei o endereço neste papel, o nome
da minha irmã é Mônica, ao vê-la, diga que mandei um beijo!
-Direi sim, fico muito grato
pela sua ajuda! Como te chamas?
-Todos me chamam de Guida...e você?
Luca não
responde de imediato, a menção daquele nome provoca-lhe um calafrio,
perceptível até mesmo para a moça à sua frente, o seu olhar se perde naquele
breve momento como se à procura de algo muito distante dali. Guida questiona o
porquê de sua expressão espantada, ele rapidamente volta a si e com uma
resposta nada convincente diz lembrar-se de um compromisso, estica a mão para
cumprimentá-la e diz seu nome.
- Luca Vino,
foi um prazer conhecê-la! Agora preciso mesmo ir!
- O que houve?
Tu não disse que recém chegou aqui...
Ele não
responde, apenas esboça um sorriso e parte na direção do prédio indicado pela
jovem. Como ela poderia adivinhar que possui o mesmo nome de alguém que lhe foi
muito importante e ainda por cima de extrema semelhança física, na verdade foi
este segundo fator que levou ele a ser tão receptivo com a jovem. O último
sorriso no semblante deste homem surgiu a uma dezena de dias e noites, quando
estava com outra Guida entre seus braços e trocavam carícias que pareciam
querer juntar-se à eternidade aquelas duas belas almas!
Após uma
rápida apresentação e troca de gentis palavras com a mulher chamada Mônica,
adentra um quarto no segundo andar onde deita em uma cama próxima da janela com
cortinas entreabertas e que dançam lentamente ao frio sopro anunciante de outra
noite inimiga do calor.
O esgotamento
físico leva-lhe rapidamente ao sono, que assim como nas últimas noites não é um
terreno mais tranquilo que o atual mundo real onde caminha. Nos sonhos as
névoas tomam sempre a mesma forma: figuras correndo em ruas pouco iluminadas e
deixando para trás uma jovem agonizante, Luca atordoado por um golpe acima de
seu supercílio escorrendo sangue e escurecendo sua visão... o sonho segue para
dias seguintes onde com informações de oficiais da lei ele pratica sua vingança
com disparos certeiros de sua própria arma, são estes mesmos oficiais que o
levam a responder perante a lei por sua atitude impulsiva, ele escapa da
sentença de prisão mas perde seu cargo como um agente da lei. Este sonho tem se
repetido diversas vezes e nada mais é do que a transposição de seus últimos
dias na capital São Paulo.
Ao abrir os
olhos, percebe em todo o quarto uma iluminação escarlate. Como o sangue que
ardia sua vista poucos instantes atrás, no reino dos sonhos; os cabelos daquela
adorável moça no bar; as madeixas de outra muito importante para aquele que
conduzia todos seus pensamentos com sua imagem sempre brilhante. Ela, a total
manifestação de amor que ele sentiu em todos seus dias, desde aquela tarde a
três invernos atrás quando um amigo de velhos tempos apresentou-lhe como sendo
uma grande pessoa da qual nutria extremo carinho e gostaria de vê-la
acompanhada dele, que mais tarde não teve forças para negar o desejo de
vingança que tirava-lhe o sono. A rubra luz vinha de uma velha placa com letras
incandescentes que piscavam aleatoriamente e indicavam existir uma casa de
diversões noturnas naquela pequena construção ao lado do hotel onde descansava.
Olhando para o relógio de ponteiros em seu pulso vê ser uma hora da manhã e
tendo descansado um pouco durante seu angustiante sonho, resolve conhecer
aquele estabelecimento. Após uma rápida troca de roupas, um choque de água fria
no rosto termina por despertar-lhe os sentidos. Saído do quarto, desce as
escadas e passa na recepção onde vê Mônica ainda ali, tratando de receber os
que naquela tardia hora surgem.
- Oi! Você ainda
por aqui!
- É, tenho um
funcionário que fica aqui de noite, mas hoje não pode vir então ficarei eu
mesma!
- Certo! Vou
ver como é essa casa aqui ao lado, estou sem sono mesmo...
- Escute, sei
que não é da minha conta, mas tu parece um bom sujeito, além de que até a Gui
foi com a sua cara, então acho que não vai curtir o tipo de pessoas que
encontrará lá dentro!
- Não
esquenta, estou acostumado com estas figuras onde morei antes...
Luca sai
deixando uma expressão de gratidão pela preocupação de Mônica. Ele tem noção do
tipo de ambiente que irá adentrar, bem como de seus respectivos ocupantes.
Na entrada,
coberta por um velho toldo, estão dois homens de porte avantajado trajando
roupas escuras, com olhares indiferentes, protegendo uma pequena porta, enquanto
discretamente observam sua silhueta procurando por armas escondidas. Se estes
dois guardiões prestassem mais atenção em seu semblante poderiam perceber um
leve tom de deboche. Ao entrar, é golpeado nas narinas pelo forte odor de
tabaco naquele ambiente de pouca luz em todos sentidos da palavra, uma ampla
sala com várias mesas e sofás em todas paredes do recinto onde vê homens e
mulheres sussurrando, alguns mais agitados, talvez efeito do álcool nos copos
entre seus dedos tremulantes, vibrando no ar o som de um velho blues tocado de
maneira enérgica denunciando aos bons conhecedores do assunto tratar-se de
fortes acordes do saudoso Steve Ray Vaughan.
Em meio a esse
ambiente caótico, ele avista uma mesa desocupada e é para onde se desloca,
exatamente como procura, em um canto da sala ainda menos iluminado.
Na recepção do
hotel, Mônica está sentada atrás do balcão entediada e pensando o que está
fazendo ali, porque não contratou sua irmã para ficar em seu lugar nesta noite
fria que poderia estar em casa aquecida entre cobertores em sua cama, tendo
consciência que Guida está passando por necessidades financeiras provavelmente
aceitaria.
Distraída e
pensando em sua irmã mais nova, Mônica não percebe que a própria está entrando
pela porta naquele exato instante.
-
Mona! Está de carcereira hoje?!
-
E tu, na rua esta hora! No mínimo estava batendo coxa atrás de algum
macho por aí...
-
Diferente de ti, não sou uma solteirona encalhada, mas para teu governo
não estava me divertindo e sim bancando a babá do filhote de uma conhecida. Era
aqui perto, o guri já foi dormir e a mãe dele acabou de chegar e então estou
indo dormir um pouco! Passei ali na calçada e vi que ainda estava aqui
dentro...
-
Isso eu não posso negar: tu é uma guria trabalhadora! Mudando de
assunto, hoje a tarde esteve aqui um cara bem charmoso que tu indicou!
-
Ah, sim! Luca não-sei-do-quê, ele não está mais?
-
Ih, pelo jeito já se interessou! Ficou hospedado sim, por pouco não
cruzou com ele aqui mesmo! Neste exato momento está aí do lado, no bar do
Roger!
-
Putz! Não deveria tê-lo deixado ir para lá, aquilo ali é ponto de
prostitutas e traficantes...
-
Calma, Gui! Sem querer falar mal do teu amorzinho, acho que ele sabe
muito bem onde está indo!
-
Não acredito, ele me pareceu ter um olhar tão honesto. Pra variar, sempre
me engano com os homens!
Nesse momento,
Mônica sente vontade de abraçar sua irmã, para ela Guida sempre será uma
ingênua apaixonada.
O olhar de
consolo entre as duas é interrompido pelo som de disparos próximos.
Tudo ocorre
rapidamente, apressados frequentadores daquele estabelecimento saem esbarrando
nos dois seguranças externos como se fossem figuras de papelão em tamanho real
caindo ao menor movimento. Poucos instantes depois, o som estridente de sirenes
termina por expulsar de vez o já distante silêncio.
As duas irmãs,
tomadas pela curiosidade, decidem ir à calçada, próximas a uma viatura policial
escutam a conversa entre dois representantes da lei proferindo o nome do
proprietário do estabelecimento e de dois outros como sendo as vítimas.
-
Este cachorro já foi tarde!
Um dos
policiais vira-se ao ouvir tal comentário e questiona o conhecimento destas
mulheres. Mônica responde, explica que o falecido Roger Rodrigues era um homem
inescrupuloso que namorou sua irmã por um longo ano até ela descobrir seu envolvimento
com drogas e prostituição e terminar o relacionamento. Ele, perdidamente
apaixonado e muito furioso, foi embora para São Paulo deixando sócios cuidando
de seus escusos negócios. Inesperadamente, voltou na semana anterior, dizendo
que ao chegar no centro do país, matou e enterrou ela, resolvendo então voltar.
Elas perguntam
por aquele jovem na qual falavam antes de ouvirem os disparos, com a descrição
dada, o investigativo agente percebe tratar-se do assassino narrado pelas
testemunhas que estavam lá dentro, tendo sumido antes de sua chegada ao local.
Dias depois,
após um longo levantamento de dados, todos saberão que aquele anjo vingador foi
um agente da polícia federal e que poucas semanas atrás perdeu sua noiva em um
assalto, que optou por uma justiça pessoal, encontrando apenas um dos
criminosos, sendo este o que demonstrou maior ódio pela vítima. Alguns
perceberão também, a peculiar semelhança física e de nome entre aquela noiva
assassinada em São Paulo e uma das duas irmãs presentes no recente crime
ocorrido naquele bar. Com esta infeliz coincidência, as pessoas entenderão os
motivos destes dois crimes e dirão que o caso foi encerrado.
Lembranças
Vermelhas
Primavera de
2007
L.
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