quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Mergulho em Dúvidas

  Ele está parado em cima daquela pedra há horas, parece que se passaram apenas alguns minutos... pulou em cima dela no final da tarde, o Sol começara a se esconder no horizonte e a onda que se aproximava era diminuta, mas ganhando em estatura ao tamanho que sente neste momento... Um dia foi muito feliz, momentos que ele sabia não seriam eternos, mas tinha certeza que bastaria lembrar-se e se veria sorrindo... Não é o que acontece ali parado olhando para a grandiosidade do oceano, quase implorando que uma gigantesca onda chegue e lhe tire deste mundo da qual sabe que não pertence mais! Afinal, para que continuar a existir sabendo que o motivo de ter vindo foi para encontrar uma pessoa que não está mais presente, não importa para onde caminhe, nunca mais vai olhar para aquele sorriso que era tudo que precisava quando queria ter um momento perfeito, nada lhe faltava, olhava para ela até cair no sono com o suspiro de quem tem o coração completamente satisfeito tendo a certeza que acordará para outro dia mais feliz ainda...

  Ele sempre foi um ser tocado pela tristeza, outras belas mulheres que caminharam ao seu lado percebiam isto ao passar de certo tempo, parecia um segredo, algo estampado em seu semblante, quando indagado um trêmulo e nem um pouco convincente esboço de sorriso era sua resposta, àquela que questionava bastava naquele momento como resposta, pois percebia que não conseguiria extrair nenhuma palavra de fundamento, então não havia porque insistir em algo enterrado em concreto, mas que inexplicavelmente parecia ficar transparente...

  Ele sempre soube o porquê destes súbitos reflexos de tristezas indefinidas, mas como alguém pode dizer que tem conhecimento de que lágrimas estão chegando e afirmar com convicção de que não há razão para vertê-las.


  Em outra pedra, próxima o suficiente para uma linda jovem ficar admirando aquele belíssimo homem sentado, não é a primeira vez que enxerga-lhe, pelo contrário, nos últimos entardeceres tem se tornado seu maior prazer, ficar vendo aquele ser ali parado, sonhando acordada com o momento em que se erguerá, com um encantador sorriso virá em sua direção, começando o romance que ela sempre idealizou, mesmo que seja apenas um lampejo de paixão, um amor repentino, encontro de corpos por uma única vez naquelas areias, seria um prazer sem limites. Até esse instante parece-lhe que ele não sentiu nada por ela, deve ter lhe visto e sentiu nenhum interesse naquela imagem de longos cabelos cacheados que fica em transe a lhe observar, ela tem a certeza que seria desejar demais um homem assim...


  Ele, permanece imóvel, acompanhando com o olhar a formação das ondas, até o instante em que o véu da noite substitui o azulado horizonte, tendo certeza de que não há razão para continuar vivo, não entende por que até agora não acabou com sua existência, nesse início de mais uma solitária noite em seu apartamento talvez ele consiga chegar até um armário onde deixou uma série colorida de comprimidos e encerrar algo que ele tem certeza ter acabado e que só precisa do ato final.


  Ela, permanece paralisada, sente uma aceleração no coração ao ver aquele homem levantar e saltar da pedra, caminhando em sua direção, perdendo qualquer sinal de vergonha entra naqueles olhos cada vez mais próximos e percebe que não está sonhando, com ele mais perto ainda, sente seus braços e pernas tremerem, o que dirá para ele, que palavras poderá soprar para lhe excitar, que olhar deve fazer para seduzi-lo, nervosamente trespassa os dedos em suas madeixas e o objeto tão desejado está quase à sua frente, pouquíssimos passos os separam, um calor no peito, é o momento.


  Tendo descido da pedra e com a mórbida ideia fixa naqueles diversos medicamentos que lhe esperam, começou a caminhar, não entende por que não o fez ainda, em sua mente nada mais, passos cada vez mais decididos que lhe roubam a atenção, fazendo com que não perceba a bela imagem a lhe admirar tão intensamente.


  Invisível, um nada transparente e sem significado, assim ela se sentiu quando aquele ser da qual não conseguia desviar o olhar passou ao seu lado sem esboçar a menor reação, há tempos ela considera sua vida vazia de significado, dificilmente se apaixonava, nem mesmo atração física sentia mais, como se a chama de sua existência estivesse tremulante quase se apagando, há uns dias atrás lhe viu naquela mesma pedra onde então passou a lhe vigiar todos os dias, acreditando ter encontrado sua alma gêmea, deu uma chance ao destino, pois estava cogitando a ideia de acabar com tudo, algumas vezes parava na janela de seu quarto, daquele sétimo andar tinha certeza que bastaria estender o corpo para fora e mergulhar para o término dessa meia-vida, uma pequena esperança lhe dizia que talvez tivesse alguém que ela teria um papel importante, dando um sentido à vida, mesmo não sentindo carência de sentimentos, tinha total convicção de que deveria encontrar esta pessoa e cumprir um papel incumbido à ela pelo destino.


  Ele voltou para seu silencioso apartamento, na sua mente ainda a imagem dos comprimidos lhe esperando, tinha a certeza que uma desesperada combinação de tantas pílulas diferenciadas lhe levariam ao sono eterno, súbito lhe vem uma dúvida, por que não apostar mais uma vez no jogo da vida, talvez ao sair outra vez aparecesse uma mulher para um recomeço. Torna a olhar para os remédios, lembra que a pouco estava decidido e para ter mais garantias de sucesso em sua empreitada final decide sair, encontrar uma farmácia e acrescentar uma carga maior daquelas pastilhas coloridas. Enquanto desce as escadas de sua morada, outra vez a indecisão, será que alguma mulher desejaria um homem tão romântico o quanto ele foi um dia, surge na sua memória a imagem de ter visto vez ou outra na praia, uma figura feminina solitária, uma dúvida lhe faz tentar lembrar do rosto daquela mulher, mas está ciente que sua tristeza tão compenetrada lhe roubou esta lembrança, assim como a certeza de se foram uns ou todos os dias das últimas semanas em que lhe viu entre as pedras onde tem dividido sua solidão, acreditando que ao recuperar esta imagem perdida em sua mente, desistirá de seus intentos.


  Caminhando não mais tão decidido, em sua mente uma dança de dúvidas: comprar mais medicamentos ou não? Como era o rosto que pode ser sua salvação? Desistir de tudo ou procurar nova vida? Ao dobrar a esquina, vê um aglomerado de pessoas na calçada à sua frente, ao redor de uma vítima de um acidente ou crime, nunca entendeu esta curiosidade mórbida que as pessoas tem por estas cenas. Procura desviar sem prestar atenção, mas escuta dos lábios daquela plateia de abutres que a vítima era depressiva, que era certo que uma hora iria tolamente se matar, mas não esperavam que fosse fazê-lo assim, atirando-se pela janela. Então, por um rápido instante ele olha para baixo e naquela vítima reconhece o rosto que tanto tentou lembrar a pouco.


                                  Outono de 2013.
                                                            L.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Princesa Dadá

    Em certa fase da minha vida, morei em uma pousada, sempre convivendo com pessoas diferentes por curtos períodos de tempo. Da rápida passagem de uma carinhosa amiga nesses dias, resolvi escrever algo. Nesta época, tive longos dias (e noites) jogando um game fantasioso (Final Fantasy VI), então optei por transformar a história em um conto de fadas, fiz uma sinopse para em outro momento criar algo mais longo, mas apreciando o resultado desta, deixe-a assim mesmo...



Muitas histórias podem ser contadas sobre a Princesa Dadá Limão, afinal de contas ela enfrentou muitos desafios em sua vida e continua a fazê-lo, o que a deixa cada vez mais forte, deixando orgulhosos todos aqueles que a amam.
Devemos contar primeiramente sobre o seu reino: Lilípoli, este belíssimo lugar é responsável pela segurança de muitos outros, no mundo da Princesa Dadá, todos os reinos praticam alguma boa ação um com os outros, por isso quase sempre são todos felizes e alegres. Todos habitantes se tornam soldados ao chegar à idade adulta, praticando isto sempre, pois quando a existência está chegando ao final seja por morte em algum campo de batalha ou por alguma doença letal, eles são transportados para uma cidadela flutuante e invisível que paira acima de seu reino, todos que estão lá em cima também se tornam invisíveis, quer permanecendo dentro ou quando descem para cuidar mais de perto de seus filhos, assim aconteceu com o velho Rei Gagá Limão, que foi um General do exército lilipoliano por muito tempo e também é pai da Linda Dadá. Todos os reinos chamam esta cidadela de Céus, pois ao olhar para cima tentando vislumbrá-la só enxergam a imensidão azul do céu, mas sentem um calor diferente, como se alguém estivesse bem perto e protegendo.
Em todos os reinos que praticavam boas ações, as famílias tinham nomes de frutas.
A Princesa Dadá era muito amiga do Príncipe Lulú Figo, no mundo todo, os pais sempre querem que seus filhos se casem, mas Lulú não pertencia ao reino da Princesa Dadá, e sim à uma terra muito mais antiga e de tradições diferentes, é uma longa história envolvendo os pais de ambos: o pai de Lulú chamava-se Lilí Figo e faleceu há muito tempo atrás, na época a Princesa Dadá era apenas uma criança e Lulú estava chegando à idade adulta, em seu reino a boa ação que retribuem a outras terras é a preocupação e o hábito constante de nunca deixar ninguém a sós, o Senhor Lilí trabalhava cuidando de um castelo durante as noites e um dia adoeceu e veio a falecer dentro de um hospital, a Cidadela dos Céus olhou para ele naquele momento e como sua profissão lembrava à dos habitantes de Lilípoli e coincidentemente possuía um nome semelhante ao daquele reino, foi levado por eles.
Certa vez houve uma bruxa malvada chamada Nôsia, com intenções maléficas. Todas famílias possuíam uma árvore gigantesca da fruta que dá nome ao clã e era também uma moradia com muitos quartos, a Bruxa Nôsia fez um casarão falso que a Princesa Dadá pensou se tratar de outra família bondosa por ser todo pintado na cor da fruta Laranja no lado de fora, mas quando ela entrou lá, percebeu que os quartos não eram espaços alegres e arejados, mas sim pequenas prisões sem luz, mal cheirosos e para sair precisava desamarrar nós feitos com uma corda muito grossa que prendiam suas pernas e ao passar pela porta tinha que pagar muitas moedas de ouro para a bruxa, sendo que ao sair a maldosa dava um jeito de raptá-la novamente, e é neste lugar que estava preso a um certo tempo o Príncipe Lulú.
Ambos tentaram fugir várias vezes daquele lugar ruim, planejavam juntos a próxima tentativa de fuga, mas a bruxa era esperta e tinha uma espiã: uma cobra disfarçada de Princesa, que Lulú erroneamente achou que fosse uma boa pessoa por também se chamar Dadá.
A Princesa Dadá era muito bela, ao ver seu rosto com mais atenção percebia-se não ser uma criação comum, mas sim uma obra de traços exóticos, maravilhosos cabelos claros e ondulados, lindos e grandes olhos negros, pele macia de uma bela cor bronzeada e lábios que causavam loucuras em outros príncipes; mas mesmo assim a Bruxa usou um feitiço que a fez acreditar que não fosse bonita, fazendo-a cega à beleza que via todos os dias ao se olhar no espelho. A Princesa comentou com Lulú sobre alguns príncipes que tentaram conquistá-la, teve um que era muito admirado por outras princesas por ser bonito e ter tirado o primeiro lugar em um torneio muito difícil de perguntas e respostas, mas depois ela viu o quanto ele era esnobe. Outro se aproximou dela de forma mais nobre e carinhosa, chegaram até a andarem juntos de mãos dadas, mas ela não queria saber de ninguém, só o que sentia era muita falta de sua mãe, a Rainha Sasá Limão.
Foi nesse momento que os pais das famílias Limão e Figo se conheceram na Cidadela dos Céus e trocaram algumas ideias, perceberam que seus filhos se gostavam de uma forma terna, como verdadeiros irmãos e pediram ao Senhor dos Céus que ajudassem sua prole a fugirem da bruxa, o Rei Gagá comentou que ambos sempre cuidariam um do outro, e que sua filha por ser muito mais nova um dia ajudaria Lulú quando estivesse bem velhinho, nem que fosse arrumando outra velhinha para ele se casar, o soldado Lilí por sua vez, garantiu que seu filho sempre cuidaria de Dadá, nunca a deixando sozinha e triste, ele até admitiu que o filho às vezes fosse meio chato e sufocante, mas se ela tiver paciência verá que serão amigos para sempre.
O Senhor dos Céus resolveu atender as preces daqueles senhores e enviou até a Princesa Dadá uma Fada muito poderosa acompanhada de dois pequenos anjinhos que desamarraram os nós que a prendiam, retiraram o encantamento que não a deixava perceber a própria beleza e transportaram-na até sua mãe, que também sentia muita falta de sua filha. Antes de sair, a Fada olhou para o Príncipe Lulú e disse que voltaria para lhe soltar.

Ao voltar para casa, a Princesa entrou para o mesmo exército que seu pai fez parte, com direito a uma bela cerimônia na presença de seus antigos amigos e do mais recente, mas não menos orgulhoso Príncipe Lulú, este tendo a certeza de que sua grande amiga deu o primeiro passo para um dia se tornar Rainha.  Até os dias de hoje se reúnem de tempos em tempos e soltam muitas risadas lembrando-se destas e outras aventuras a serem contadas em outro momento.  

                              Final do Inverno de 2012
                                                                       L.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Lembranças Vermelhas


           Ao falar de uma cidade fictícia sendo pano de fundo para contos policiais é impossível não citar a minha indiscutível influência advinda de Frank Miller, um mestre das comics de temática adulta, mesmo quando os personagens usam espalhafatosos trajes colantes em cores primárias e de Raymond Chandler e seus romances Noir. Penso que bons empreendimentos culturais devem ser influentes. Pretendo trilhar em cenários mais modestos, mas como tais palavras envolvem as complexidades do ser humano continuarão a manter sua profundidade. O conto das próximas páginas é centrado no jovem  Luca Vino, 27, cidadão de São Paulo, onde atuou na polícia federal até sua recente exoneração por circunstâncias  não esclarecidas por ele...


    Pedra Alta, Rodoviária principal desta grande cidade. Vários rostos desembarcando de diversos ônibus, são semblantes saudosos por esse lugar com suas praias de águas incrivelmente cristalinas para uma metrópole tão poluída, mares que acariciam rochedos erguidos de forma majestosa pela natureza.
    Seus habitantes despedem-se de um rigoroso inverno ainda castigante, principalmente para turistas recentes da região central brasileira. Luca Vino nunca havia pisado nesta cidade, mas conhecendo sua glacial formosura chegou com vestes apropriadas à fria brisa que sopra entre aquelas ruas.
Caminhando com seus sapatos escuros, calca jeans levemente descoloridas, camiseta branca coberta por um longo capote marrom, em seu semblante com barba cerrada estão olhos claros e distantes que junto aos seus cabelos desalinhados pelo vento totalizam uma imagem que não provoca interesse em prostitutas que lhe passam despercebidas, sua atenção está voltada para um bar no outro lado daquela avenida de tráfego movimentado.
Percebendo, por sons oriundos de seu estômago, estar com fome, resolve entrar naquele bar de ambiente pequeno, pouco iluminado e portanto ideal para se manter discreto e anônimo. Após entrar, ele senta-se em uma mesa ao fundo daquele lugar onde não há mais ninguém além de uma bela jovem de tez clara e cabelos vermelhos, ocultando seus traços físicos com um longo avental levemente sujo demonstrando frequentes atividades inerentes a uma cozinheira. Alguns segundos depois ela dirige-se à sua mesa com um sorriso simpático e mostrando-lhe um simples cardápio.
-Olá! Achei que esta hora no final da tarde não viria mais ninguém aqui, já estava limpando tudo para fechar daqui a pouco! Quer beber algo...escolher algum lanche do cardápio..?        
Grato com a simpatia daquela bela mulher ele pede  uma cerveja e um lanche que sacie seu apetite. Enquanto manuseia um cigarro e uma pequena carteira de fósforos solicita um cinzeiro após questionar a permissão para fumar em tal estabelecimento.
Luca, após alguns minutos degustando a fermentação de levedo resfriada de uma garrafa de cerveja em sua mesa, vê a jovem de madeixas escarlates retornar portando entre seus braços um prato com pães torrados exalando o agradável odor de queijo derretido.
  -Tu é novo aqui na cidade? Sou ótima para memorizar rostos e não me lembro...
-Realmente, não sou daqui. Estou sempre viajando e trocando de ares, cheguei a pouco de São Paulo, encarei uma longa viagem de ônibus por horas com passageiros barulhentos. Estou louco para achar algum hotel barato e me atirar na cama o resto do dia!
-Então tu está com sorte, sei de uma pequena pensão de bom preço aqui perto, pertence à minha irmã mais velha! Vou te dar o endereço! Tu vai gostar de lá, fica duas ruas para trás daqui...coloquei o endereço neste papel, o nome da minha irmã é Mônica, ao vê-la, diga que mandei um beijo!
 -Direi sim, fico muito grato pela sua ajuda! Como te chamas?
-Todos me chamam de Guida...e você?
Luca não responde de imediato, a menção daquele nome provoca-lhe um calafrio, perceptível até mesmo para a moça à sua frente, o seu olhar se perde naquele breve momento como se à procura de algo muito distante dali. Guida questiona o porquê de sua expressão espantada, ele rapidamente volta a si e com uma resposta nada convincente diz lembrar-se de um compromisso, estica a mão para cumprimentá-la e diz seu nome.
- Luca Vino, foi um prazer conhecê-la! Agora preciso mesmo ir!
- O que houve? Tu não disse que recém chegou aqui...
Ele não responde, apenas esboça um sorriso e parte na direção do prédio indicado pela jovem. Como ela poderia adivinhar que possui o mesmo nome de alguém que lhe foi muito importante e ainda por cima de extrema semelhança física, na verdade foi este segundo fator que levou ele a ser tão receptivo com a jovem. O último sorriso no semblante deste homem surgiu a uma dezena de dias e noites, quando estava com outra Guida entre seus braços e trocavam carícias que pareciam querer juntar-se à eternidade aquelas duas belas almas!
Após uma rápida apresentação e troca de gentis palavras com a mulher chamada Mônica, adentra um quarto no segundo andar onde deita em uma cama próxima da janela com cortinas entreabertas e que dançam lentamente ao frio sopro anunciante de outra noite inimiga do calor.
O esgotamento físico leva-lhe rapidamente ao sono, que assim como nas últimas noites não é um terreno mais tranquilo que o atual mundo real onde caminha. Nos sonhos as névoas tomam sempre a mesma forma: figuras correndo em ruas pouco iluminadas e deixando para trás uma jovem agonizante, Luca atordoado por um golpe acima de seu supercílio escorrendo sangue e escurecendo sua visão... o sonho segue para dias seguintes onde com informações de oficiais da lei ele pratica sua vingança com disparos certeiros de sua própria arma, são estes mesmos oficiais que o levam a responder perante a lei por sua atitude impulsiva, ele escapa da sentença de prisão mas perde seu cargo como um agente da lei. Este sonho tem se repetido diversas vezes e nada mais é do que a transposição de seus últimos dias na capital São Paulo.
Ao abrir os olhos, percebe em todo o quarto uma iluminação escarlate. Como o sangue que ardia sua vista poucos instantes atrás, no reino dos sonhos; os cabelos daquela adorável moça no bar; as madeixas de outra muito importante para aquele que conduzia todos seus pensamentos com sua imagem sempre brilhante. Ela, a total manifestação de amor que ele sentiu em todos seus dias, desde aquela tarde a três invernos atrás quando um amigo de velhos tempos apresentou-lhe como sendo uma grande pessoa da qual nutria extremo carinho e gostaria de vê-la acompanhada dele, que mais tarde não teve forças para negar o desejo de vingança que tirava-lhe o sono. A rubra luz vinha de uma velha placa com letras incandescentes que piscavam aleatoriamente e indicavam existir uma casa de diversões noturnas naquela pequena construção ao lado do hotel onde descansava. Olhando para o relógio de ponteiros em seu pulso vê ser uma hora da manhã e tendo descansado um pouco durante seu angustiante sonho, resolve conhecer aquele estabelecimento. Após uma rápida troca de roupas, um choque de água fria no rosto termina por despertar-lhe os sentidos. Saído do quarto, desce as escadas e passa na recepção onde vê Mônica ainda ali, tratando de receber os que naquela tardia hora surgem.
- Oi! Você ainda por aqui!
- É, tenho um funcionário que fica aqui de noite, mas hoje não pode vir então ficarei eu mesma!
- Certo! Vou ver como é essa casa aqui ao lado, estou sem sono mesmo...
- Escute, sei que não é da minha conta, mas tu parece um bom sujeito, além de que até a Gui foi com a sua cara, então acho que não vai curtir o tipo de pessoas que encontrará lá dentro!
- Não esquenta, estou acostumado com estas figuras onde  morei antes...
Luca sai deixando uma expressão de gratidão pela preocupação de Mônica. Ele tem noção do tipo de ambiente que irá adentrar, bem como de seus respectivos ocupantes.
Na entrada, coberta por um velho toldo, estão dois homens de porte avantajado trajando roupas escuras, com olhares indiferentes, protegendo uma pequena porta, enquanto discretamente observam sua silhueta procurando por armas escondidas. Se estes dois guardiões prestassem mais atenção em seu semblante poderiam perceber um leve tom de deboche. Ao entrar, é golpeado nas narinas pelo forte odor de tabaco naquele ambiente de pouca luz em todos sentidos da palavra, uma ampla sala com várias mesas e sofás em todas paredes do recinto onde vê homens e mulheres sussurrando, alguns mais agitados, talvez efeito do álcool nos copos entre seus dedos tremulantes, vibrando no ar o som de um velho blues tocado de maneira enérgica denunciando aos bons conhecedores do assunto tratar-se de fortes acordes do saudoso Steve Ray Vaughan.
Em meio a esse ambiente caótico, ele avista uma mesa desocupada e é para onde se desloca, exatamente como procura, em um canto da sala ainda menos iluminado.
Na recepção do hotel, Mônica está sentada atrás do balcão entediada e pensando o que está fazendo ali, porque não contratou sua irmã para ficar em seu lugar nesta noite fria que poderia estar em casa aquecida entre cobertores em sua cama, tendo consciência que Guida está passando por necessidades financeiras provavelmente aceitaria.
Distraída e pensando em sua irmã mais nova, Mônica não percebe que a própria está entrando pela porta naquele exato instante.
-         Mona! Está de carcereira hoje?!
-         E tu, na rua esta hora! No mínimo estava batendo coxa atrás de algum macho por aí...
-         Diferente de ti, não sou uma solteirona encalhada, mas para teu governo não estava me divertindo e sim bancando a babá do filhote de uma conhecida. Era aqui perto, o guri já foi dormir e a mãe dele acabou de chegar e então estou indo dormir um pouco! Passei ali na calçada e vi que ainda estava aqui dentro...
-         Isso eu não posso negar: tu é uma guria trabalhadora! Mudando de assunto, hoje a tarde esteve aqui um cara bem charmoso que tu indicou!
-         Ah, sim! Luca não-sei-do-quê, ele não está mais?
-         Ih, pelo jeito já se interessou! Ficou hospedado sim, por pouco não cruzou com ele aqui mesmo! Neste exato momento está aí do lado, no bar do Roger!
-         Putz! Não deveria tê-lo deixado ir para lá, aquilo ali é ponto de prostitutas e traficantes...
-         Calma, Gui! Sem querer falar mal do teu amorzinho, acho que ele sabe muito bem onde está indo!
-         Não acredito, ele me pareceu ter um olhar tão honesto. Pra variar, sempre me engano com os homens!
Nesse momento, Mônica sente vontade de abraçar sua irmã, para ela Guida sempre será uma ingênua apaixonada.
O olhar de consolo entre as duas é interrompido pelo som de disparos próximos.
Tudo ocorre rapidamente, apressados frequentadores daquele estabelecimento saem esbarrando nos dois seguranças externos como se fossem figuras de papelão em tamanho real caindo ao menor movimento. Poucos instantes depois, o som estridente de sirenes termina por expulsar de vez o já distante silêncio.
As duas irmãs, tomadas pela curiosidade, decidem ir à calçada, próximas a uma viatura policial escutam a conversa entre dois representantes da lei proferindo o nome do proprietário do estabelecimento e de dois outros como sendo as vítimas.
-         Este cachorro já foi tarde!
Um dos policiais vira-se ao ouvir tal comentário e questiona o conhecimento destas mulheres. Mônica responde, explica que o falecido Roger Rodrigues era um homem inescrupuloso que namorou sua irmã por um longo ano até ela descobrir seu envolvimento com drogas e prostituição e terminar o relacionamento. Ele, perdidamente apaixonado e muito furioso, foi embora para São Paulo deixando sócios cuidando de seus escusos negócios. Inesperadamente, voltou na semana anterior, dizendo que ao chegar no centro do país, matou e enterrou ela, resolvendo então voltar.
Elas perguntam por aquele jovem na qual falavam antes de ouvirem os disparos, com a descrição dada, o investigativo agente percebe tratar-se do assassino narrado pelas testemunhas que estavam lá dentro, tendo sumido antes de sua chegada ao local.
Dias depois, após um longo levantamento de dados, todos saberão que aquele anjo vingador foi um agente da polícia federal e que poucas semanas atrás perdeu sua noiva em um assalto, que optou por uma justiça pessoal, encontrando apenas um dos criminosos, sendo este o que demonstrou maior ódio pela vítima. Alguns perceberão também, a peculiar semelhança física e de nome entre aquela noiva assassinada em São Paulo e uma das duas irmãs presentes no recente crime ocorrido naquele bar. Com esta infeliz coincidência, as pessoas entenderão os motivos destes dois crimes e dirão que o caso foi encerrado.

                Lembranças Vermelhas
                                                    Primavera de 2007
                                                                                 L.